A consulta integra o proceUma tartaruga e um cactus desenhados em cima de mapas das cidades de Milão e Roma, na Itália. Do seu lado esquerdo, um triângulo de tinta com a frase “3˚ beijo de Giotto” escrita em lápis. Do direito, uma cruz e uma rosa. Este conjunto de elementos é apenas um recorte de uma das 13 obras expostas na nova mostra do mezanino do Museu de Arte Contemporânea da USP (MAC-USP) até o dia 29 de novembro. Lá, são reunidas obras que demonstram a mistura de poéticas apropriadas pelo artista carioca Nelson Felix, que se unem em um encontro de linguagens, ou, como definido por ele, um Beijo de Língua – nome da exposição.
“Eu acredito que todo artista cria uma linguagem, seu próprio jeito de falar. Isso vem de uma vontade muito grande de se comunicar com o outro”, afirma Felix, de 72 anos. “Se você apertar aqui e ali, tem uma mensagem. Sempre tem. Mas o interessante é que essa mensagem não seja decodificada, para que a arte fique num estado amorfo. Num estado poético.”
O primeiro andar do mezanino reúne os quadros da exposição, não a clássica tela de algodão e tinta a óleo, mas sim obras gráficas com elementos escultóricos. Alguns deles misturam impressões fotográficas sobre papel, bastão de óleo e grafite em um quadro de madeira com proteção de vidro. Um exemplo é Jano (2023-2024), que apresenta duas versões da mesma foto do próprio artista em preto e branco. Parte delas está recortada e entrelaçada de perfil, de modo a se unir, formando uma só imagem. Em cima, estão escritas as palavras “Aramea” e “Aemara”, uma em cima da outra, com setas apontando para lados opostos.
A dupla de palavras é um mote em toda a mostra. Elas apareceram juntas pela primeira vez em uma viagem de Felix a Lima, no Peru, em 1978. Estava com um amigo venezuelano, quando o colega apontou que um dos idiomas falados pelos indígenas da região, “aemara”, escrito ao contrário era a palavra “aramea”, que significa aramaico em espanhol. “Isso me chamou muito a atenção, pelo grau de simbolismo. Ficou na minha cabeça e pensei que aquilo daria uma exposição, mas teria que ser algo tridimensional.”
O problema era que o artista não tinha dinheiro para comprar os materiais para fazer obras do jeito que desejava. “Por serem línguas, que são faladas, também pensei em transformar a ideia em uma performance artística. Mas isso estava na moda, especialmente no Brasil. Decidi que usar essa linguagem, por ser o novo ‘estilo’, roubaria a força que ela poderia ter. E assim esse trabalho veio me perseguindo a vida toda”, relata.
Por se tratar de uma produção pautada na língua, escolheu três livros que considera significativos na história da arte como inspiração: Libro de la vida (1562-1565), de Santa Teresa de Ávila, What I Believe (1925), de Bertrand Russell, e Hino a Hermes (entre os séculos 7 e 6 a. C.), de Homero. O último, no entanto, é o mais recorrente na exposição. “O poema é enorme, tem quinhentos e tantos versos, eu escolhi oito. E para você entendê-los precisa saber que Hermes era um cara muito inteligente, mas passava a perna em todo mundo.”
A história começa com o nascimento do deus grego dos viajantes, do comércio e das linguagens, Hermes, filho do rei dos deuses, Zeus. Na mitologia grega, os deuses não nascem bebês, mas sim figuras com corpos adultos. Nesse caso, Hermes nasce dentro de uma caverna e a primeira coisa que faz ao sair é roubar as vacas de seu irmão Apolo, deus da música e do Sol. Por isso, é repreendido por Zeus, que o manda retornar. No meio do caminho, é interrompido por uma tartaruga e percebe que o casco dela poderia ser usado para criar um instrumento musical quando combinada às cordas intestinais de um cordeiro. Assim, surge a cítara.
“Na minha visão, ao criar um instrumento para gerar som e transformar este som em música, ele inventou a arte”, conta. A tartaruga é retratada em diversas das peças e, inclusive, nomeia uma delas, Tartaruga de Homero (2024): uma série de impressões fotográficas de um homem de camisa branca e calça jeans, segurando uma tartaruga na lateral do corpo com escritos na frente. Apoiadas nos quadros, há estacas de metal e, na frente, um penduricalho de cobre.
Mariana Trafane, Jornal da Usp
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Fonte: Jornal Zona Sul


