O eterno retorno – Jornal São Paulo Zona Sul


Trabalho há dez anos no mesmo lugar, em uma das principais avenidas da Vila Mariana. De segunda a quinta-feira, para fugir desse rio cansado chamado congestionamento, vou de ônibus até o metrô Liberdade e repito o mesmo trajeto na volta, como quem segue um roteiro já internalizado, sem precisar pensar.

Quinta-feira é como um nó que de tanto ser puxado, enfim cede: se no domingo à noite pesa a lembrança da segunda de manhã, na quinta à noite tudo se ilumina. Vou para casa leve porque às sextas, é dia de home office, e aproveito a hora do almoço para ir até a praça de alimentação do shopping. É lá que eu fico sozinho, tomo sorvete e me desligo de tudo, enquanto observo as pessoas que não fazem parte da minha rotina. Elas não falam comigo, não me conhecem. Eu quando falo é somente para fazer um pedido.

Estou casado há mais de dez anos e sempre brinco que vivo em regime semiaberto. Trabalho durante o dia e me recolho à minha casa à noite para ver minha esposa e repetir o mantra: banho, jantar, falar sobre o nosso dia, assistir uma série ou ler um livro antes de dormir e o sono chega rápido.

Mas a segunda é o eterno retorno, e naquele dia fui de carro porque precisava buscar minha mãe após uma consulta médica. Na ida, ela foi de Uber e na volta eu teria que buscá-la.

Na avenida próximo ao meu trabalho, uma sirene surgiu atrás de mim. Tentei abrir caminho, mas ninguém avançava. Engarrafamento. Irritado com a sirene do Resgate que me arrancou do meu podcast, buzinei com toda a força para o carro da frente. O trânsito cedeu alguns centímetros. O suficiente para dar passagem. Alguns minutos depois, alcancei a ambulância já estacionada e reduzi a velocidade só para xeretar.

No meio do caos, os paramédicos ajudavam num parto, no meio da avenida. A criança chorava e a mãe entre lágrimas sorria. Era a vida abrindo espaço onde ninguém conseguia passar. Fiquei parado alguns segundos. O carro de trás buzinou alto e o trânsito voltou a andar. Segui dirigindo, tentando lembrar qual era o assunto do podcast.

* Daniel Hiato é escritor e mantém no Instagram o perfil @daniel_hiato, no qual aborda gramática da Língua Portuguesa





Fonte: Jornal Zona Sul

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